segunda-feira, 23 de abril de 2007

O dia em que eu parei de Fumar.

Os retratos pareciam flutuar com muito mais leveza através do olhos dele naquela tarde de sol frio, ao som de velhas músicas isto parece ser bem mais acessível. São desenhos à giz, sujos e frios no chão de um quintal da casa de uma infância qualquer, num dia de chuva.


Repousara toda a tarde sentado na cadeira de balanço, vestia, ainda, o conjunto de moletom cinza que vestira, sem tomar banho, na noite passada. Da janela do apartamento observava desde as crianças que saem limpas para brincar até o retorno sujo e faminto aos puxões de orelha.


Como num dia em que se abre uma gaveta esquecida e se acha aquela velha caixa de música onde dar cordas com mãos cansadas parece causar melodias diferentes. Bem no fundo se reconhece a música, mas há algo no ar, aquele dia escuro, aqueles sorrisos histéricos, olhos tristes com ares de felicidade ébria. Algo diferente de saudade, com certeza. Ele saúda os velhos tempos com semblante homicida, e divaga: "Se ao menos me restasse dor". Mas dentre as sobras da inveja ele traduz apenas os velhos lamentos de um Country fora-da-lei.


Subí as escadas com ânsia, não sei se por medo do encontro com o desconhecido ou por finalmente poder comprar o livro. Bati à porta semi-aberta por dez minutos, no entanto a única resposta era o pesado ranger da cadeira de balanço. Abri a porta.


O cigarro ainda repousava aceso em sua boca enrugada . O peso das lembranças foi muito maior do que a força do seu pescoço: o quebrou ao virar para olhar quem acabara de entrar.



* Maios ou menos assim soa o Things We Lost In The Fire do belíssima banda Low. Quem conhece intende o título do meu blog. Se não conhece faça o favor de ir aí oh: http://luizyoung.blogspot.com/2007/03/low-things-we-lost-in-fire-2001.html

Vale.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Eu pediria sigilo, talvez um pouco mais do que costumam os armários adolescentes. Confidência, porque sabe-se lá o que pode acontecer ao se revelar o próprio futuro à alguém que mal-si-conhece. Digo isso porque o que irei relatar ainda não aconteceu, acontecerá nas próximas décadas, se no dia 24 de abril de 2016 eu encontrar Tomás Gonçalo por acaso numa cafeteria, se assim for construída uma, em Arapiraca. E se assim, os fatos forem cúmplices da euforia do acaso e da construção do caso em questão, do quarto em questão.

Éramos amigos de muito tempo, falávamos de envelhecer como se fala do sexo no café da manhã, mas não entre amigos, entre amantes. A essa altura da vida eu já me esquecera o que finalmente seria falar de sexo, me lembrava vagamente das minhas promessas de morrer ao amanhecer após ter tido uma última noite de amor com a única mulher de minha vida. Falávamos da vida, que pouco à pouco se tornava lacuna. De livros que mal podíamos ler com os olhos fracos, de Avantgarde do passado, falávamos do presente e da morte.

Morte, esta foi sem dúvida a pior decepção do ciumento defunto. Ao ver o seu precioso quarto violado e lotado quase me neguei a lhe prestar as minhas últimas homenagens, não por descaso ou fraqueza, e sim por respeito. Lá estava o caixão sobre a mesa, sufocado por estranhos. O quarto por tanto tempo sacro, agora servia-se como cortesia de prostituta. No rosto fúnebre do câncer via-se toda a agonia do ciúmes, como se ele mesmo assisti-se a violação de sua virgem namorada. O quarto que por tanto tempo foi proibido para a intimidade de sua família, que mesmo vazio para a dedetização - as baratas corriam por toda a casa como se fossem ao trabalho, e ao anoitecer voltavam ao quarto - não deixou de causar embrulhos no estômago e olhares obsessivos pela janela. Foi sempre assim, bastava alguem se aproximar da porta, trancada à três trancas, e sua inquietude começava. Vez ou outra passava horas dentro do quarto, encaixotando objetos desconhecidos, movendo móveis, para que assim sua mulher pudesse entrar e retirar, sobre sua vigilância doentia, o pó que lhe impregnava a asma. Mas sempre com o meticuloso cuidado de não mudar NADA de lugar. Foram anos de devoção islâmica ao quarto, encomendando caixas, pintando, reformando, no entanto toda vez que olhava para a sua porta suspirava e perguntava a si mesmo se já não era a hora de desistir. Mas o mundo continuava a mudar-lhe o quarto.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Bebida, cigarros e conversas sobre sexo.

Tem gente por aí dizendo que quem não vive agora acaba exagerando nas próximas-crises-de-idade. Não sei ao certo o quando eu me encaixo nessa fábula(?), aqui na frente de um teclado, recatado, enquanto meio mundo se encharca de promessas e dívidas. Afinal, sou eu e minhas duas metades; uma se pergutando porque escrever e a outra achando tudo isso uma transgressão. Uma delas foi vista na tv como um ator fantasiado de velho, sabe? Com aquelas pelancas de silicone, sobrancelhas envelhecidas e impotente. A outra se preucupa cada vez mais com os fios que escapam pelo ralo do banheiro. Talvez Eu seja, de fato, velho e gordo. Meu pai disse um dia que bebia cerveja porque gostava do gosto, quando o amargo lhe vinha ele desistia. Às vezes, eu simplemente não quero dar de cara com o porteiro, exatamente, este que amaldiçoa Deus todos os dias por estar todos os dias abrindo e fechando portões com indiferença, com todo o tédio de ser o único porteiro que nunca dorme, histérico com todo orgulho de nunca encarar um condômino. Sintetizando, é bem pior o encontrar sóbrio e frio como um cadáver às três da manhã. Eu nunca sei que porque usar. Isso é uma apresentação, como aqueles textos de About me, eu juro que vou ser um pouquinho mais fiel a realidade, amanhã.

é...

É eu sei... Eu não sei escrever.
A verdade é que eu tenho inveja.