terça-feira, 18 de setembro de 2007
Finais.
Como um gago, sabe? Sou um gago, não um desses que repetem toda primeira sílaba, por que no final das contas eu, na pior da hipóteses, só falo meio enrolado. São as minhas frases que são impotentes. Nunca sái o que deveria, e quando eu olho para trás: - Quê?
Abandonei os vermelhos. Me envergonham
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Pontos de ônibus e crimes de trânsito.
Sangrava de tédio, os 10 anos pelas mesmas ruas fizeram em sua mentes buracos de raciocínio que coincidiam exatamente com as paradas de ônibus. Dirigia o 703 desde que largara o emprego no supermercado, e desde sempre mantinham uma relação de um longo e tedioso casamento, onde os problemas ficam expostos com suas óbvias razões pequenas, onde se advinha cada palavra que irá se suceder, e finalmente, onde não há surpresa alguma em acordar todas as manhãs acompanhado.
Mas naquele dia uma dúvida flutuou, sentado no ponto de ônibus se equilibrava sobre a bunda magra um homem desatento. Lentamente diminuo a velocidade do ônibus até finalmente parar e abrir as portas na frente do possível passageiro, fez isto com a incerteza que nunca sofrera na vida. E como se de fato existisse outro caminho ele pergunta ao homem se ele vai subir, mas não, o passageiro nega-lhe a presença e diz que irá pegar outro ônibus.
Magoado ele fecha as portas com desleixo e segue, perplexo. Sabia que há pelo menos 5 anos este era o único ônibus que passava por aquele ponto. Agora, a dúvida e a ansiedade o seguiriam até a morte. Quando? Ele sabe. Talvez no sinal fechado há três quadras dali, enquanto ele ligava para saber se o outro ônibus realmente passaria.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
E agora?
Eu tava pensando em escrever um conto um pouco maior, mas desisti, vou colocar os pedaços que eu escrevi aqui depois. essa merdinha. =/
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Fantasmas e amigos de infância.
No carrosel, no banco de frente de casa, no dia que fugiu do circo, no medo da água escura da praia, no cachorro que fugio aquele dia. E finalmente, naquele dia em que vômitou no banco de trás do carro.
E lá estava novamente, sólido, com todos os dentes e garras. Tomando-lhe as palavras pelo buraco que fizera na gastrite viciada em café. E como num salto, sem medir palavras ou corrigir o portuguÊs: O sono.
domingo, 12 de agosto de 2007
terça-feira, 17 de julho de 2007
Visitas em tempos de faltas e buracos no tempo.
AFinal, hoje em dia, nunca se sabe o que poderiam fazer tais palavras abusadas e digamos, mutiladas. O que poderiam fazer suas mentes perversas escritas em linhas tão tortas? É a lei da selva, a Lei das ruas, da merda.
Mas o que novamente disseram os jornalistas? "É tudo causa do buraco que foi aberto no último post." Espalharam por aí que as palavras escorregaram desfiladeiro abaixo, cegas de ciúmes, embolando umas sobre as outras, na verdade: confundindo-se. Fazem de tudo o mesmo abatedor de galinhas engordadas.
Eu não sei o que nada disso significa, sei que tenho saudade, saudade dos dias que viram. Pois aquele dia em que eu cozinhava ouvindo Jamie Cullum, como se o dia estivesse mesmo ensolarado e a minha casa fosse um pouco maior. Cozinhando com mais de uma opção de tempero, com nós moscada em pó, com todos aqueles lá do supermercado. E aquele alho, qual é mesmo o nome dele? Não sei. O que me molha as calças é exatamente olhar pela janela-de-um-novo-quarto-sem-cama, é recordar que a vista não se parece com a vida, e que tudo continua nas caixas.
Se mudar dói. Dói cada degrau subido com a geladeira. Sem falar que acaba com os móveis, vão desabando os coitados. A geladeira por exemplo, tá assim meio de lado, nostálgica e caidinha, e por mais que fale de toda vida na terapia continua com aquela sensação de vazio, as vezes me pergunto se a culpa é minha, se eu devia fazer uma feira maior, sei lá, talvez comprar mais coisas que precisem ficar dentro dela. Mas este negócio de se sentir útil é auto-ajuda pura. Eu só queria ter vontade de cozinhar, e não simplesmente fritar um hamburguer e comer com arroz gelado. Parece que me roubaram o último abraço.
terça-feira, 19 de junho de 2007
Tudo caminhava bem, talvez até todos. Mas tem sempre este tipo de acidente, bases-mal-feitas, infiltrações e problemas camuflados.
Enquanto as ultimas pedras rolam a multidão se junta ao redor.
Não se sabe ainda qual a gravidade do acidente, ou até, quais as causas exatas. Ainda não descartaram a possibilidade de fralde, de intencionalidade.
terça-feira, 12 de junho de 2007
Impaciência e esquecimentos.
Como um segundo quadro que me tocou, algo que de fato mudou algo em algum lugar aqui dentro. Soando assim, repetido mesmo. Li um dia que um bom contista não escreve na hora da agonia, que deveria esperar o estado passar e só depois descrever, e re-viver, todo o momento. Pensei nisso durante toda a caminhada, entre dores no pé e raras disposições.
Mas lá estava o personagem que mencionei: sentado no banco enquanto observava silenciosamente o carrinho do bebê, enquanto, com olhares distraídos e vazios, a babá se distanciava e cantava canções sobre sexo.
Ele parecia ter sido abatido, como um porco para ser mais exato, tinha o pescoço baixo e os braços cruzados sobre as pernas abertas. O bebê dormia. Ela andava sem pisar nas linhas do calçadão. O dia parecia um mistura de amarelo com cinza, como se assim tivesse que se vestir para banhar alguém com que se importava o bastante.
Mas o dia logo anoiteceu, o homem que vendia pipoca foi para casa, a menina correu com os chinelos na mão, o sono do garoto que ia para escola deu meia volta e deitou-se. A babá esqueceu. Esqueceu da vida, das pessoas, das roupas, do bebê, e nua dormiu estirada no calçadão preto-branco-e-vermelho. No fundo, algo de amarelo ainda embaçava a escuridão.
Timidamente o homem se aproximou do carrinho, arrastando-se pelo banco, e com suas mãos quentes tateou as bordas, fez assim por todo o comprimento. Dentro algo lhe apressava, algo entre os pulmões e o coração, que subia-lhe pela garganta e o fazia tremer até o dedo do pé. Fazia tudo de olhos fechados, tateava com agonia e lábios secos.
O mundo se inclinou, e a babá, havia esquecido o freio aberto. Assim, o pequenino continuava a dormir à medida que a ladeira o carregava. Enquanto, com braços estirados, o homem buscava desesperado no buraco que havia feito no calçadão, em meio à toda areia, em meio à toda lama. E uma voz no fundo gritando em seus ouvidos: Calma! Calma, Calma.
domingo, 10 de junho de 2007
Bolinhas de gude e homens mentirosos.
Estava lá. Deitado de bruços no meio da sala. Se segurava nos azulejos brancos com suas unhas ruídas. Com as pontas dos dedos doendo e com pés que começavam a ceder ao peso da mesa: Finalmente, levantou vôo.
Preocupava-se. Afinal, o que diriam os vizinhos se o vissem sair voando pela janela?
Pouco à pouco os outros pequenos objetos começavam a acompanhá-lo. Estes, por sua vez, não tinham a sua perícia, voavam tortos, sem asas, e o máximo que conseguiram foi se apoiarem no teto empoeirado.
Cuidadosamente driblou cada insignificante, e antes que suas últimas bolinhas de gude fugissem pela janela ele à fechou, tímido, como se o expiassem nu. Fechou as persianas e observou paranoicamente a rua que se molhava depravadamente, sob e sobre cada idiota que acredita na previsão do tempo.
Ele rio, e as horas correram e esperaram ansiosamente que às encontrassem. Como crianças no pique-esconde.
Pensou, pesquisou na internet, no almanaque que insistia em bater nas janelas, nas anotações do colégio, no caderno de finanças dos pais e em cada pedaço de papel que conseguia nadar através. E nada, nem uma mísera dica sobre o que acontecera.
Pensou, como tanto sonhara, ter virado astronauta. Juntou algumas dúzias de bolinhas de gude e fez como o cara da televisão fez com os chicletes: As deixou flutuar livremente pelo espaço e, com alvoroço, engolia uma por uma, a leitosa, a carambola, a mudinha, aquelas verdes bem simples, as azuis, e até uma de metal que achou um dia ser uma delas. Mas não o cocolão, o olho-de-boi.
Tudo soava muito bem, a àgua que tomava sem copo, só abrindo a torneirinha do filtro e a esperando entrar levemente garganta à dentro, a preguiça de andar estava finalmente resolvida, a piscina que fizera no teto do banheiro, e as outras milhões de coisas-que-se-pode-fazer-quando-se-está-quase-sem-gravidade. No entanto certas coisas começaram a preocupar: A vontade de ir no banheiro por exemplo, como ele faria? ia deixar lá a poça de merda no teto? E o cocô, que provavelmente iria ficar flutuando por toda a casa. E os seus pais? O que diriam de toda aquela bagunça? E a aula no outro dia? Será que lá fora o resto da cidade também estaria assim?
As horas passaram, as costas começavam a doer por estarem sempre tensas. A comida e as bolinhas de gude que comera continuavam a tentar escapar pela sua garganta toda vez que ele ficava na posição vertical. Cansou. Queria dormir mas aquela sensação começava a lhe deixar enjoado, e o gosto de vômito começava a lhe invadir os sabores. Desistiu.
Abriu a janela com uma expressão de culpa, como se assim fizesse como ultima opção. Segurou com as mãos e pés na borda e abriu a boca. Lentamente sentiu cada bola de gude tomar o mundo, em seguida os pedaços de salsicha, logo depois uma água suja que nem lembrara ter tomado. Queria saber até onde iriam, se saíam voando ou se despencariam ladeira à baixo. Elas sumiram.
Não se sabe se foi por descuido ou por vontade, mas dizem que ao se inclinar para procurar a última bolinha de gude um pé lhe escapou, e com ele todo o corpo, escorregou no ar. foi-se.
segunda-feira, 4 de junho de 2007
Problemas e curiosos.
Arrancou os olhos das órbitas e colocou dentro de cada ralo da casa, em cada cano, dentro de do cada mísero espaço. Procurou em todo lugar que poderiam se esconder as fotografias.
E finalmente, procurou no album, mas nem lá estava.
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Reflexões contemporâneas sobre o cotidiano e Xerox.
Eu me repito.
Eu me repito.
Eu me repito.
Eu me repito.
Eu me repito.
Eu me repito.
Eu me repito.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
Primeiros andares e discursos de auto-ajuda.
Aproveitei o momento perfeito, abordei-lha no exato momento em que ficara vazia, e contra os seus degrais teimosos eu tentei finalmente subir contra a sua vontade. O shopping parecia deserto, erradiava sua alvura como uma missionaria perversa, entre quartos trancados e dentes rangidos.
O peso sempre é maior.
Caí, rolei e desmaiei. Eu jazia estirado quando me balançaram e me fizeram recobrar à consciência.
Abri os olhos sem perceber, o mundo havia se tornado escuro e a vozes transfiguravam-se em manchas róseas no horizonte. Eu havia ficado cego.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Crises e Faltas.
Fragmentado, acrônico, anacrônico. Como aquele quebra-cabeça que montei na casa de um amigo. Montando, ou desmontando, aleatoriamente, em um ano talvez eu terminasse. Mas no final das contas: faltava umas 10 peças num quebra-cabeça de mil. Será que eu havia terminado?
Não sei, uma garota me disse uma vez para eu não jogar fora o que eu escrevo, acho q naum vou mesmo. Vou juntar braços, pernas, dedos e quem sabe até um coração, mas não um cérebro, ele sempre me faz refazer tudo.
Outro dia, um amigo, se assim ele me permitir o chamar, perguntou se eu estava com aquelas "frescuras de escritor", falta de inspiração e coisas do tipo. Eu disse que não, como não ter inspiração? To falando da minha vida, tenho que escrever, no mínimo, 19 anos. Mas que de fato não sabia como o fazer. Não quero ser beat nem clássico. Uns dizer que sou mais moderno mesmo. Eu só sei que não sou escritor. Escrevo como quem vai à analise, mas que mesmo assim se preucupa como falar. Eu quero um livro, sim, um livro. Cheio de páginas em branco.
terça-feira, 15 de maio de 2007
Relatos e velhos divorciados.
É simplesmente doloroso, dizia ele, e acendia o terceiro cigarro enquanto me relatava o caso que acompanhava, são cinqüenta e seis anos de casamento. No seu semblante preocupado eu vi muito mais do que compaixão, ou até, muito mais do que medo.
Como se de alguma forma vivesse os retratos quebrados, os álbuns queimados, como se de fato visse toda uma casa-rebocada-com-lembranças-antes-felizes sendo demolida para que finalmente fosse construído o tal arranha-céu-apático, de aço e concreto, como tudo sem forma ou sentimento que nos substitui algo que acaba nos faltando.
Ela havia olhado a prateleira e observado cuidadosamente todas as fotos, lembranças de casamento, e coleções-sem-razão que acumulara. Trêmula olhou para cada pedaço de vida que ainda lhe restava e sentiu o passado tomar-lhe as pernas, como mortos em filmes de terror, agarrando-lhe os pés, fazendo ainda mais sacrifício de seus passos gastos. E ao chegar à janela: Parou.
Ele, já havia perdido o gosto há muitos anos, sentava-se à cama e reclamava ao diabo a suas dores. Este ultimo, todos os dias o respondia, sussurrava-lhe imagens infernais e explicava detalhadamente a cena derradeira. E tinha a ferida: Aquela que cultivou como orquídea, e que como tal a expunha, com orgulho e rancor, com exclusividade, como se o sol e a lua todos os dias brigassem para contemplá-la.
E lá estavam, enojados, dividindo moeda a moeda, tijolo por tijolo, tudo aquilo que construíram de mãos dadas.
O genro tremeu ao olhar rosto da mulher ouvindo a notícia, despejou toda a esperança do sábado como se joga uma vaso pela janela. Tudo porque aquilo parecia absurdo.
Todos os filhos-bem-casados entraram em colapso, repensaram todo um quarto de memórias procurando míseros pedaços de erro, ouvindo cada palavra amável dos seus amantes, esperando friamente o momento do desgarre. Doera muito mais do que em dois corações cansados, que pareciam finalmente terem perdido o fio.
Como andaria o velho sem o braço da velha? Que roupa colocaria? Para quem a velha sorriria daquela forma tão discreta?
Uma história que me encarnou no estômago e só me aliviou quando fui até o quarto, e lá à vi dormindo: A mulher que me dá corda à vida.
Um ano.
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Sobre balançar sozinho.
É tarde, e essa palavra inscrita de saudade mal-balançava o pequeno-confuso sob a sombra da mangueira naquela tarde de janeiro ensolarado.
Acabara de aprender a faze-lo sozinho, contorcia o corpo com esforço e ansiava o vôo, mas continuavam a faltar-lhe as mãos nas costas. Como naqueles dias de preguiça do mar, quando as ondas mal se levantam para cumprimentar as pedras. Mal sabem elas porque, mas fazem assim, sem vontade, como se precisassem de um empurrão, ou quem sabe de uma dor real, que pague a dívida.
Sobre o balanço seus pés falhavam ao buscar apoio no chão, esforços que o males da idade se negavam a retribuir, como se assim esperassem para que fossem chutados por canelas mais longas.
Sangrava. Do joelho jorrava-lhe a conclusão de que a brincadeira, talvez, não tenha valído à pena, muito menos as lágrimas de desgosto daqueles outros lá. E em meio a dor e o medo do remédio se perguntava: “Salto?”.
Eram férias e sexta-feiras, no entanto, o sol-que- se-punha acusava-o àquela sensação das noites de domingo. Se encararam como os-velhos-amigos-que-um-dia-foram, do tempo em que o hidrocor amarelo ainda pintava sorrisos naqueles céus de gaivotas-tortas.
Ele puxou as cordas com mais força, dobrar e esticar ainda mais as pernas. Mas já era tarde, o céu deixou-se anoitecer como quem é coberto antes de dormir, e num último bocejo advertiu-lhe o castigo do atraso.
Esperou a corrida terminar e baixou a cabeça, esperando a inércia fazer seu trabalho esperou só mais uma reclamação dum grilo qualquer. Fui pra casa.
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Clones, lembranças salva-vidas e Vazio.
Escrevo hoje pela primeira e última vez - assim espero - do presente, do exato momento em você lê. E juro, só o faço por as palavras me faltarem, por me escorrerem do teclado e passarem por debaixo da porta, subir as escadas e se jogarem do terceiro andar. Escrevo com a impressão de não ter o quê escrever.
Escrevo para me redimir, matei, confesso e assim peço clemência. Foi Passional, talvez assim tudo se torne mais fácil; esfaqueando enquanto prometia casamento eterno.
Porque ontem anoite cheguei tão tarde que me atrasei para alguma coisa além-da-porta-trancada. Abri a porta e não reconheci o sofá, a mesa e a cama. Ao acordar, sem equilíbrio nem anseio, cheguei a conclusão de que não havia mais sobre o quê, por acaso, escrever. Foi então que intendi finalmente a causa da ausência de sentimentos escritos: "eu repetia a vida de alguém”. O fiz enquanto jogava as palavras no chão, como quem corre e segura o vômito na boca.
Tudo isso, palavra por palavra, entre vírgulas e e dores: havia sido escrito por mais-alguem. Por isso não sei se rio ou se choro, ou se tento algo como o Visconde partido ao meio, do Ítalo Calvino. Por isso escrevo sem saber se matei ou se fui morto, com a única certeza de que copiei versos mal-escritos, e sem saber o que escrever no meu epitáfio.
Juro, não estou seguro do homicídio, o sangue aguado tornava-se cada vez mais aguado em meio aos grossos pingos d'água do chuveiro. E lá no chão eu me confundia com a morte, tapava os buracos rubros com mãos, pés e corpo. No pequeno espaço do box nossas vidas se embaralhavam, memórias que sem garantias me agarravam e me condenavam à vida, suspiros tensos e derradeiros de-sei-lá-quem.
Volto a jurar, foi eu aquele que ví morrer. E agora nesse momento eu sei, alguém escreve por mim. Alguém que é lembranças, lembranças da única coisa que ainda me prende à vida.
Pela última vez: Eu juro, não sou eu que minto.
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Monstros e quadros despedaçados.
É óbvio, refiro-me ao dia em que comecei a me despedaçar. Pouco antes de encontrar um quadro que me dizia tudo aquilo que eu ouvia com palavras mudas vindas de algum lugar escuro embaixo da minha cama. Algo dito por um desses monstros que acreditávamos que finalmente nos pegariam quando ou se apagássemos as luzes, por isso o salto para cima da cama, o medo de ter o pé a agarrado, as luzes acesas.
Como se de fato à luz a vida fosse diferente, ou fosse assim mais fácil com as luzes ligadas. Tem gente que até diz o contrário – “She says It helps with the lights out” - O que eu acho é que de fato, numa dessas madrugadas-em-que-meupai-apagou-a-luz-enquantoeudormia, foram sussurradas aos meus ouvidos palavras que nunca deviam ser ditas à crianças, palavras que falam mais do quê como e quando se vai morrer, ou mais até do quê ameças disto. Eu não consigo me lembrar do dia, não consigo me lembrar quando ou onde, ou até quem. Só sei que desde lá tenho procurado em músicas, lido em livros, e experimentado em tudo, mas parece que William Basinsky estava certo em Desintegrations loops, é exatamente assim, infinito e despedaçante.
No quadro o homem tenta segurar os seus pedaços que tombam, junto deles seus braços que tentam a todo custo segurar-se e sustentar todo um foco, ou um olhar, como vidros fragmentados de igrejas, que por si já se despedaçam. Como um vaso caído que teima em juntar seus pedaços e guardá-los dentro de si, assim, como se ninguém pudesse perceber a merda que ele acabara de fazer, como se tivesse mãos para tal.
O que interessa é que eu percebi: Eu estava com Lepra. Eu percebi quando ouvi minha mãe falar de uma mãe de uma amiga - Ela Desmanchava, literalmente, como se seus pedaços não estivessem mais por que continuar, então eles simplesmente vão embora. - Então eu vivo, minha Lepra ( Hanseníase) Silenciosa e discreta, que me consome pedaços e paciência. E um pedaço do meu estômago, mas isso eu não sei se é Lepra.
segunda-feira, 23 de abril de 2007
O dia em que eu parei de Fumar.
Os retratos pareciam flutuar com muito mais leveza através do olhos dele naquela tarde de sol frio, ao som de velhas músicas isto parece ser bem mais acessível. São desenhos à giz, sujos e frios no chão de um quintal da casa de uma infância qualquer, num dia de chuva.
Repousara toda a tarde sentado na cadeira de balanço, vestia, ainda, o conjunto de moletom cinza que vestira, sem tomar banho, na noite passada. Da janela do apartamento observava desde as crianças que saem limpas para brincar até o retorno sujo e faminto aos puxões de orelha.
Como num dia em que se abre uma gaveta esquecida e se acha aquela velha caixa de música onde dar cordas com mãos cansadas parece causar melodias diferentes. Bem no fundo se reconhece a música, mas há algo no ar, aquele dia escuro, aqueles sorrisos histéricos, olhos tristes com ares de felicidade ébria. Algo diferente de saudade, com certeza. Ele saúda os velhos tempos com semblante homicida, e divaga: "Se ao menos me restasse dor". Mas dentre as sobras da inveja ele traduz apenas os velhos lamentos de um Country fora-da-lei.
Subí as escadas com ânsia, não sei se por medo do encontro com o desconhecido ou por finalmente poder comprar o livro. Bati à porta semi-aberta por dez minutos, no entanto a única resposta era o pesado ranger da cadeira de balanço. Abri a porta.
O cigarro ainda repousava aceso em sua boca enrugada . O peso das lembranças foi muito maior do que a força do seu pescoço: o quebrou ao virar para olhar quem acabara de entrar.
Vale.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
Eu pediria sigilo, talvez um pouco mais do que costumam os armários adolescentes. Confidência, porque sabe-se lá o que pode acontecer ao se revelar o próprio futuro à alguém que mal-si-conhece. Digo isso porque o que irei relatar ainda não aconteceu, acontecerá nas próximas décadas, se no dia 24 de abril de 2016 eu encontrar Tomás Gonçalo por acaso numa cafeteria, se assim for construída uma, em Arapiraca. E se assim, os fatos forem cúmplices da euforia do acaso e da construção do caso em questão, do quarto em questão.
Éramos amigos de muito tempo, falávamos de envelhecer como se fala do sexo no café da manhã, mas não entre amigos, entre amantes. A essa altura da vida eu já me esquecera o que finalmente seria falar de sexo, me lembrava vagamente das minhas promessas de morrer ao amanhecer após ter tido uma última noite de amor com a única mulher de minha vida. Falávamos da vida, que pouco à pouco se tornava lacuna. De livros que mal podíamos ler com os olhos fracos, de Avantgarde do passado, falávamos do presente e da morte.
Morte, esta foi sem dúvida a pior decepção do ciumento defunto. Ao ver o seu precioso quarto violado e lotado quase me neguei a lhe prestar as minhas últimas homenagens, não por descaso ou fraqueza, e sim por respeito. Lá estava o caixão sobre a mesa, sufocado por estranhos. O quarto por tanto tempo sacro, agora servia-se como cortesia de prostituta. No rosto fúnebre do câncer via-se toda a agonia do ciúmes, como se ele mesmo assisti-se a violação de sua virgem namorada. O quarto que por tanto tempo foi proibido para a intimidade de sua família, que mesmo vazio para a dedetização - as baratas corriam por toda a casa como se fossem ao trabalho, e ao anoitecer voltavam ao quarto - não deixou de causar embrulhos no estômago e olhares obsessivos pela janela. Foi sempre assim, bastava alguem se aproximar da porta, trancada à três trancas, e sua inquietude começava. Vez ou outra passava horas dentro do quarto, encaixotando objetos desconhecidos, movendo móveis, para que assim sua mulher pudesse entrar e retirar, sobre sua vigilância doentia, o pó que lhe impregnava a asma. Mas sempre com o meticuloso cuidado de não mudar NADA de lugar. Foram anos de devoção islâmica ao quarto, encomendando caixas, pintando, reformando, no entanto toda vez que olhava para a sua porta suspirava e perguntava a si mesmo se já não era a hora de desistir. Mas o mundo continuava a mudar-lhe o quarto.