terça-feira, 12 de junho de 2007

Impaciência e esquecimentos.

Como um segundo quadro que me tocou, algo que de fato mudou algo em algum lugar aqui dentro. Soando assim, repetido mesmo. Li um dia que um bom contista não escreve na hora da agonia, que deveria esperar o estado passar e só depois descrever, e re-viver, todo o momento. Pensei nisso durante toda a caminhada, entre dores no pé e raras disposições.

Mas lá estava o personagem que mencionei: sentado no banco enquanto observava silenciosamente o carrinho do bebê, enquanto, com olhares distraídos e vazios, a babá se distanciava e cantava canções sobre sexo.

Ele parecia ter sido abatido, como um porco para ser mais exato, tinha o pescoço baixo e os braços cruzados sobre as pernas abertas. O bebê dormia. Ela andava sem pisar nas linhas do calçadão. O dia parecia um mistura de amarelo com cinza, como se assim tivesse que se vestir para banhar alguém com que se importava o bastante.

Mas o dia logo anoiteceu, o homem que vendia pipoca foi para casa, a menina correu com os chinelos na mão, o sono do garoto que ia para escola deu meia volta e deitou-se. A babá esqueceu. Esqueceu da vida, das pessoas, das roupas, do bebê, e nua dormiu estirada no calçadão preto-branco-e-vermelho. No fundo, algo de amarelo ainda embaçava a escuridão.

Timidamente o homem se aproximou do carrinho, arrastando-se pelo banco, e com suas mãos quentes tateou as bordas, fez assim por todo o comprimento. Dentro algo lhe apressava, algo entre os pulmões e o coração, que subia-lhe pela garganta e o fazia tremer até o dedo do pé. Fazia tudo de olhos fechados, tateava com agonia e lábios secos.

O mundo se inclinou, e a babá, havia esquecido o freio aberto. Assim, o pequenino continuava a dormir à medida que a ladeira o carregava. Enquanto, com braços estirados, o homem buscava desesperado no buraco que havia feito no calçadão, em meio à toda areia, em meio à toda lama. E uma voz no fundo gritando em seus ouvidos: Calma! Calma, Calma.

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