terça-feira, 19 de junho de 2007
Tudo caminhava bem, talvez até todos. Mas tem sempre este tipo de acidente, bases-mal-feitas, infiltrações e problemas camuflados.
Enquanto as ultimas pedras rolam a multidão se junta ao redor.
Não se sabe ainda qual a gravidade do acidente, ou até, quais as causas exatas. Ainda não descartaram a possibilidade de fralde, de intencionalidade.
terça-feira, 12 de junho de 2007
Impaciência e esquecimentos.
Como um segundo quadro que me tocou, algo que de fato mudou algo em algum lugar aqui dentro. Soando assim, repetido mesmo. Li um dia que um bom contista não escreve na hora da agonia, que deveria esperar o estado passar e só depois descrever, e re-viver, todo o momento. Pensei nisso durante toda a caminhada, entre dores no pé e raras disposições.
Mas lá estava o personagem que mencionei: sentado no banco enquanto observava silenciosamente o carrinho do bebê, enquanto, com olhares distraídos e vazios, a babá se distanciava e cantava canções sobre sexo.
Ele parecia ter sido abatido, como um porco para ser mais exato, tinha o pescoço baixo e os braços cruzados sobre as pernas abertas. O bebê dormia. Ela andava sem pisar nas linhas do calçadão. O dia parecia um mistura de amarelo com cinza, como se assim tivesse que se vestir para banhar alguém com que se importava o bastante.
Mas o dia logo anoiteceu, o homem que vendia pipoca foi para casa, a menina correu com os chinelos na mão, o sono do garoto que ia para escola deu meia volta e deitou-se. A babá esqueceu. Esqueceu da vida, das pessoas, das roupas, do bebê, e nua dormiu estirada no calçadão preto-branco-e-vermelho. No fundo, algo de amarelo ainda embaçava a escuridão.
Timidamente o homem se aproximou do carrinho, arrastando-se pelo banco, e com suas mãos quentes tateou as bordas, fez assim por todo o comprimento. Dentro algo lhe apressava, algo entre os pulmões e o coração, que subia-lhe pela garganta e o fazia tremer até o dedo do pé. Fazia tudo de olhos fechados, tateava com agonia e lábios secos.
O mundo se inclinou, e a babá, havia esquecido o freio aberto. Assim, o pequenino continuava a dormir à medida que a ladeira o carregava. Enquanto, com braços estirados, o homem buscava desesperado no buraco que havia feito no calçadão, em meio à toda areia, em meio à toda lama. E uma voz no fundo gritando em seus ouvidos: Calma! Calma, Calma.
domingo, 10 de junho de 2007
Bolinhas de gude e homens mentirosos.
Estava lá. Deitado de bruços no meio da sala. Se segurava nos azulejos brancos com suas unhas ruídas. Com as pontas dos dedos doendo e com pés que começavam a ceder ao peso da mesa: Finalmente, levantou vôo.
Preocupava-se. Afinal, o que diriam os vizinhos se o vissem sair voando pela janela?
Pouco à pouco os outros pequenos objetos começavam a acompanhá-lo. Estes, por sua vez, não tinham a sua perícia, voavam tortos, sem asas, e o máximo que conseguiram foi se apoiarem no teto empoeirado.
Cuidadosamente driblou cada insignificante, e antes que suas últimas bolinhas de gude fugissem pela janela ele à fechou, tímido, como se o expiassem nu. Fechou as persianas e observou paranoicamente a rua que se molhava depravadamente, sob e sobre cada idiota que acredita na previsão do tempo.
Ele rio, e as horas correram e esperaram ansiosamente que às encontrassem. Como crianças no pique-esconde.
Pensou, pesquisou na internet, no almanaque que insistia em bater nas janelas, nas anotações do colégio, no caderno de finanças dos pais e em cada pedaço de papel que conseguia nadar através. E nada, nem uma mísera dica sobre o que acontecera.
Pensou, como tanto sonhara, ter virado astronauta. Juntou algumas dúzias de bolinhas de gude e fez como o cara da televisão fez com os chicletes: As deixou flutuar livremente pelo espaço e, com alvoroço, engolia uma por uma, a leitosa, a carambola, a mudinha, aquelas verdes bem simples, as azuis, e até uma de metal que achou um dia ser uma delas. Mas não o cocolão, o olho-de-boi.
Tudo soava muito bem, a àgua que tomava sem copo, só abrindo a torneirinha do filtro e a esperando entrar levemente garganta à dentro, a preguiça de andar estava finalmente resolvida, a piscina que fizera no teto do banheiro, e as outras milhões de coisas-que-se-pode-fazer-quando-se-está-quase-sem-gravidade. No entanto certas coisas começaram a preocupar: A vontade de ir no banheiro por exemplo, como ele faria? ia deixar lá a poça de merda no teto? E o cocô, que provavelmente iria ficar flutuando por toda a casa. E os seus pais? O que diriam de toda aquela bagunça? E a aula no outro dia? Será que lá fora o resto da cidade também estaria assim?
As horas passaram, as costas começavam a doer por estarem sempre tensas. A comida e as bolinhas de gude que comera continuavam a tentar escapar pela sua garganta toda vez que ele ficava na posição vertical. Cansou. Queria dormir mas aquela sensação começava a lhe deixar enjoado, e o gosto de vômito começava a lhe invadir os sabores. Desistiu.
Abriu a janela com uma expressão de culpa, como se assim fizesse como ultima opção. Segurou com as mãos e pés na borda e abriu a boca. Lentamente sentiu cada bola de gude tomar o mundo, em seguida os pedaços de salsicha, logo depois uma água suja que nem lembrara ter tomado. Queria saber até onde iriam, se saíam voando ou se despencariam ladeira à baixo. Elas sumiram.
Não se sabe se foi por descuido ou por vontade, mas dizem que ao se inclinar para procurar a última bolinha de gude um pé lhe escapou, e com ele todo o corpo, escorregou no ar. foi-se.
segunda-feira, 4 de junho de 2007
Problemas e curiosos.
Arrancou os olhos das órbitas e colocou dentro de cada ralo da casa, em cada cano, dentro de do cada mísero espaço. Procurou em todo lugar que poderiam se esconder as fotografias.
E finalmente, procurou no album, mas nem lá estava.