segunda-feira, 28 de maio de 2007
Reflexões contemporâneas sobre o cotidiano e Xerox.
Eu me repito.
Eu me repito.
Eu me repito.
Eu me repito.
Eu me repito.
Eu me repito.
Eu me repito.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
Primeiros andares e discursos de auto-ajuda.
Aproveitei o momento perfeito, abordei-lha no exato momento em que ficara vazia, e contra os seus degrais teimosos eu tentei finalmente subir contra a sua vontade. O shopping parecia deserto, erradiava sua alvura como uma missionaria perversa, entre quartos trancados e dentes rangidos.
O peso sempre é maior.
Caí, rolei e desmaiei. Eu jazia estirado quando me balançaram e me fizeram recobrar à consciência.
Abri os olhos sem perceber, o mundo havia se tornado escuro e a vozes transfiguravam-se em manchas róseas no horizonte. Eu havia ficado cego.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Crises e Faltas.
Fragmentado, acrônico, anacrônico. Como aquele quebra-cabeça que montei na casa de um amigo. Montando, ou desmontando, aleatoriamente, em um ano talvez eu terminasse. Mas no final das contas: faltava umas 10 peças num quebra-cabeça de mil. Será que eu havia terminado?
Não sei, uma garota me disse uma vez para eu não jogar fora o que eu escrevo, acho q naum vou mesmo. Vou juntar braços, pernas, dedos e quem sabe até um coração, mas não um cérebro, ele sempre me faz refazer tudo.
Outro dia, um amigo, se assim ele me permitir o chamar, perguntou se eu estava com aquelas "frescuras de escritor", falta de inspiração e coisas do tipo. Eu disse que não, como não ter inspiração? To falando da minha vida, tenho que escrever, no mínimo, 19 anos. Mas que de fato não sabia como o fazer. Não quero ser beat nem clássico. Uns dizer que sou mais moderno mesmo. Eu só sei que não sou escritor. Escrevo como quem vai à analise, mas que mesmo assim se preucupa como falar. Eu quero um livro, sim, um livro. Cheio de páginas em branco.
terça-feira, 15 de maio de 2007
Relatos e velhos divorciados.
É simplesmente doloroso, dizia ele, e acendia o terceiro cigarro enquanto me relatava o caso que acompanhava, são cinqüenta e seis anos de casamento. No seu semblante preocupado eu vi muito mais do que compaixão, ou até, muito mais do que medo.
Como se de alguma forma vivesse os retratos quebrados, os álbuns queimados, como se de fato visse toda uma casa-rebocada-com-lembranças-antes-felizes sendo demolida para que finalmente fosse construído o tal arranha-céu-apático, de aço e concreto, como tudo sem forma ou sentimento que nos substitui algo que acaba nos faltando.
Ela havia olhado a prateleira e observado cuidadosamente todas as fotos, lembranças de casamento, e coleções-sem-razão que acumulara. Trêmula olhou para cada pedaço de vida que ainda lhe restava e sentiu o passado tomar-lhe as pernas, como mortos em filmes de terror, agarrando-lhe os pés, fazendo ainda mais sacrifício de seus passos gastos. E ao chegar à janela: Parou.
Ele, já havia perdido o gosto há muitos anos, sentava-se à cama e reclamava ao diabo a suas dores. Este ultimo, todos os dias o respondia, sussurrava-lhe imagens infernais e explicava detalhadamente a cena derradeira. E tinha a ferida: Aquela que cultivou como orquídea, e que como tal a expunha, com orgulho e rancor, com exclusividade, como se o sol e a lua todos os dias brigassem para contemplá-la.
E lá estavam, enojados, dividindo moeda a moeda, tijolo por tijolo, tudo aquilo que construíram de mãos dadas.
O genro tremeu ao olhar rosto da mulher ouvindo a notícia, despejou toda a esperança do sábado como se joga uma vaso pela janela. Tudo porque aquilo parecia absurdo.
Todos os filhos-bem-casados entraram em colapso, repensaram todo um quarto de memórias procurando míseros pedaços de erro, ouvindo cada palavra amável dos seus amantes, esperando friamente o momento do desgarre. Doera muito mais do que em dois corações cansados, que pareciam finalmente terem perdido o fio.
Como andaria o velho sem o braço da velha? Que roupa colocaria? Para quem a velha sorriria daquela forma tão discreta?
Uma história que me encarnou no estômago e só me aliviou quando fui até o quarto, e lá à vi dormindo: A mulher que me dá corda à vida.
Um ano.
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Sobre balançar sozinho.
É tarde, e essa palavra inscrita de saudade mal-balançava o pequeno-confuso sob a sombra da mangueira naquela tarde de janeiro ensolarado.
Acabara de aprender a faze-lo sozinho, contorcia o corpo com esforço e ansiava o vôo, mas continuavam a faltar-lhe as mãos nas costas. Como naqueles dias de preguiça do mar, quando as ondas mal se levantam para cumprimentar as pedras. Mal sabem elas porque, mas fazem assim, sem vontade, como se precisassem de um empurrão, ou quem sabe de uma dor real, que pague a dívida.
Sobre o balanço seus pés falhavam ao buscar apoio no chão, esforços que o males da idade se negavam a retribuir, como se assim esperassem para que fossem chutados por canelas mais longas.
Sangrava. Do joelho jorrava-lhe a conclusão de que a brincadeira, talvez, não tenha valído à pena, muito menos as lágrimas de desgosto daqueles outros lá. E em meio a dor e o medo do remédio se perguntava: “Salto?”.
Eram férias e sexta-feiras, no entanto, o sol-que- se-punha acusava-o àquela sensação das noites de domingo. Se encararam como os-velhos-amigos-que-um-dia-foram, do tempo em que o hidrocor amarelo ainda pintava sorrisos naqueles céus de gaivotas-tortas.
Ele puxou as cordas com mais força, dobrar e esticar ainda mais as pernas. Mas já era tarde, o céu deixou-se anoitecer como quem é coberto antes de dormir, e num último bocejo advertiu-lhe o castigo do atraso.
Esperou a corrida terminar e baixou a cabeça, esperando a inércia fazer seu trabalho esperou só mais uma reclamação dum grilo qualquer. Fui pra casa.
segunda-feira, 7 de maio de 2007
Clones, lembranças salva-vidas e Vazio.
Escrevo hoje pela primeira e última vez - assim espero - do presente, do exato momento em você lê. E juro, só o faço por as palavras me faltarem, por me escorrerem do teclado e passarem por debaixo da porta, subir as escadas e se jogarem do terceiro andar. Escrevo com a impressão de não ter o quê escrever.
Escrevo para me redimir, matei, confesso e assim peço clemência. Foi Passional, talvez assim tudo se torne mais fácil; esfaqueando enquanto prometia casamento eterno.
Porque ontem anoite cheguei tão tarde que me atrasei para alguma coisa além-da-porta-trancada. Abri a porta e não reconheci o sofá, a mesa e a cama. Ao acordar, sem equilíbrio nem anseio, cheguei a conclusão de que não havia mais sobre o quê, por acaso, escrever. Foi então que intendi finalmente a causa da ausência de sentimentos escritos: "eu repetia a vida de alguém”. O fiz enquanto jogava as palavras no chão, como quem corre e segura o vômito na boca.
Tudo isso, palavra por palavra, entre vírgulas e e dores: havia sido escrito por mais-alguem. Por isso não sei se rio ou se choro, ou se tento algo como o Visconde partido ao meio, do Ítalo Calvino. Por isso escrevo sem saber se matei ou se fui morto, com a única certeza de que copiei versos mal-escritos, e sem saber o que escrever no meu epitáfio.
Juro, não estou seguro do homicídio, o sangue aguado tornava-se cada vez mais aguado em meio aos grossos pingos d'água do chuveiro. E lá no chão eu me confundia com a morte, tapava os buracos rubros com mãos, pés e corpo. No pequeno espaço do box nossas vidas se embaralhavam, memórias que sem garantias me agarravam e me condenavam à vida, suspiros tensos e derradeiros de-sei-lá-quem.
Volto a jurar, foi eu aquele que ví morrer. E agora nesse momento eu sei, alguém escreve por mim. Alguém que é lembranças, lembranças da única coisa que ainda me prende à vida.
Pela última vez: Eu juro, não sou eu que minto.
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Monstros e quadros despedaçados.
É óbvio, refiro-me ao dia em que comecei a me despedaçar. Pouco antes de encontrar um quadro que me dizia tudo aquilo que eu ouvia com palavras mudas vindas de algum lugar escuro embaixo da minha cama. Algo dito por um desses monstros que acreditávamos que finalmente nos pegariam quando ou se apagássemos as luzes, por isso o salto para cima da cama, o medo de ter o pé a agarrado, as luzes acesas.
Como se de fato à luz a vida fosse diferente, ou fosse assim mais fácil com as luzes ligadas. Tem gente que até diz o contrário – “She says It helps with the lights out” - O que eu acho é que de fato, numa dessas madrugadas-em-que-meupai-apagou-a-luz-enquantoeudormia, foram sussurradas aos meus ouvidos palavras que nunca deviam ser ditas à crianças, palavras que falam mais do quê como e quando se vai morrer, ou mais até do quê ameças disto. Eu não consigo me lembrar do dia, não consigo me lembrar quando ou onde, ou até quem. Só sei que desde lá tenho procurado em músicas, lido em livros, e experimentado em tudo, mas parece que William Basinsky estava certo em Desintegrations loops, é exatamente assim, infinito e despedaçante.
No quadro o homem tenta segurar os seus pedaços que tombam, junto deles seus braços que tentam a todo custo segurar-se e sustentar todo um foco, ou um olhar, como vidros fragmentados de igrejas, que por si já se despedaçam. Como um vaso caído que teima em juntar seus pedaços e guardá-los dentro de si, assim, como se ninguém pudesse perceber a merda que ele acabara de fazer, como se tivesse mãos para tal.
O que interessa é que eu percebi: Eu estava com Lepra. Eu percebi quando ouvi minha mãe falar de uma mãe de uma amiga - Ela Desmanchava, literalmente, como se seus pedaços não estivessem mais por que continuar, então eles simplesmente vão embora. - Então eu vivo, minha Lepra ( Hanseníase) Silenciosa e discreta, que me consome pedaços e paciência. E um pedaço do meu estômago, mas isso eu não sei se é Lepra.