Eu pediria sigilo, talvez um pouco mais do que costumam os armários adolescentes. Confidência, porque sabe-se lá o que pode acontecer ao se revelar o próprio futuro à alguém que mal-si-conhece. Digo isso porque o que irei relatar ainda não aconteceu, acontecerá nas próximas décadas, se no dia 24 de abril de 2016 eu encontrar Tomás Gonçalo por acaso numa cafeteria, se assim for construída uma, em Arapiraca. E se assim, os fatos forem cúmplices da euforia do acaso e da construção do caso em questão, do quarto em questão.
Éramos amigos de muito tempo, falávamos de envelhecer como se fala do sexo no café da manhã, mas não entre amigos, entre amantes. A essa altura da vida eu já me esquecera o que finalmente seria falar de sexo, me lembrava vagamente das minhas promessas de morrer ao amanhecer após ter tido uma última noite de amor com a única mulher de minha vida. Falávamos da vida, que pouco à pouco se tornava lacuna. De livros que mal podíamos ler com os olhos fracos, de Avantgarde do passado, falávamos do presente e da morte.
Morte, esta foi sem dúvida a pior decepção do ciumento defunto. Ao ver o seu precioso quarto violado e lotado quase me neguei a lhe prestar as minhas últimas homenagens, não por descaso ou fraqueza, e sim por respeito. Lá estava o caixão sobre a mesa, sufocado por estranhos. O quarto por tanto tempo sacro, agora servia-se como cortesia de prostituta. No rosto fúnebre do câncer via-se toda a agonia do ciúmes, como se ele mesmo assisti-se a violação de sua virgem namorada. O quarto que por tanto tempo foi proibido para a intimidade de sua família, que mesmo vazio para a dedetização - as baratas corriam por toda a casa como se fossem ao trabalho, e ao anoitecer voltavam ao quarto - não deixou de causar embrulhos no estômago e olhares obsessivos pela janela. Foi sempre assim, bastava alguem se aproximar da porta, trancada à três trancas, e sua inquietude começava. Vez ou outra passava horas dentro do quarto, encaixotando objetos desconhecidos, movendo móveis, para que assim sua mulher pudesse entrar e retirar, sobre sua vigilância doentia, o pó que lhe impregnava a asma. Mas sempre com o meticuloso cuidado de não mudar NADA de lugar. Foram anos de devoção islâmica ao quarto, encomendando caixas, pintando, reformando, no entanto toda vez que olhava para a sua porta suspirava e perguntava a si mesmo se já não era a hora de desistir. Mas o mundo continuava a mudar-lhe o quarto.
Um comentário:
olha, vc gosta do santiago, que só escreve bem no blog, pq em livro...
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