Escrevo hoje pela primeira e última vez - assim espero - do presente, do exato momento em você lê. E juro, só o faço por as palavras me faltarem, por me escorrerem do teclado e passarem por debaixo da porta, subir as escadas e se jogarem do terceiro andar. Escrevo com a impressão de não ter o quê escrever.
Escrevo para me redimir, matei, confesso e assim peço clemência. Foi Passional, talvez assim tudo se torne mais fácil; esfaqueando enquanto prometia casamento eterno.
Porque ontem anoite cheguei tão tarde que me atrasei para alguma coisa além-da-porta-trancada. Abri a porta e não reconheci o sofá, a mesa e a cama. Ao acordar, sem equilíbrio nem anseio, cheguei a conclusão de que não havia mais sobre o quê, por acaso, escrever. Foi então que intendi finalmente a causa da ausência de sentimentos escritos: "eu repetia a vida de alguém”. O fiz enquanto jogava as palavras no chão, como quem corre e segura o vômito na boca.
Tudo isso, palavra por palavra, entre vírgulas e e dores: havia sido escrito por mais-alguem. Por isso não sei se rio ou se choro, ou se tento algo como o Visconde partido ao meio, do Ítalo Calvino. Por isso escrevo sem saber se matei ou se fui morto, com a única certeza de que copiei versos mal-escritos, e sem saber o que escrever no meu epitáfio.
Juro, não estou seguro do homicídio, o sangue aguado tornava-se cada vez mais aguado em meio aos grossos pingos d'água do chuveiro. E lá no chão eu me confundia com a morte, tapava os buracos rubros com mãos, pés e corpo. No pequeno espaço do box nossas vidas se embaralhavam, memórias que sem garantias me agarravam e me condenavam à vida, suspiros tensos e derradeiros de-sei-lá-quem.
Volto a jurar, foi eu aquele que ví morrer. E agora nesse momento eu sei, alguém escreve por mim. Alguém que é lembranças, lembranças da única coisa que ainda me prende à vida.
Pela última vez: Eu juro, não sou eu que minto.
Um comentário:
"eu repetia a vida de alguém”
às vezes eu tenho essa sensação; dá um medinho de me perder. acho que eu absorvo muito facilmente muita coisa com o que me identifico.
gosto do que tu escreve. depois desse texto, fiquei com mais vontade de ler o cortázar e alguma outra coisa do calvino :)
moço, a minha memória é pessima... vc pode me dizer de novo o nome daquela banda de jazz, anthony e alguma coisa (será que era isso mesmo?) =/
bjo :*
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