terça-feira, 15 de maio de 2007

Relatos e velhos divorciados.

É simplesmente doloroso, dizia ele, e acendia o terceiro cigarro enquanto me relatava o caso que acompanhava, são cinqüenta e seis anos de casamento. No seu semblante preocupado eu vi muito mais do que compaixão, ou até, muito mais do que medo.


Como se de alguma forma vivesse os retratos quebrados, os álbuns queimados, como se de fato visse toda uma casa-rebocada-com-lembranças-antes-felizes sendo demolida para que finalmente fosse construído o tal arranha-céu-apático, de aço e concreto, como tudo sem forma ou sentimento que nos substitui algo que acaba nos faltando.


Ela havia olhado a prateleira e observado cuidadosamente todas as fotos, lembranças de casamento, e coleções-sem-razão que acumulara. Trêmula olhou para cada pedaço de vida que ainda lhe restava e sentiu o passado tomar-lhe as pernas, como mortos em filmes de terror, agarrando-lhe os pés, fazendo ainda mais sacrifício de seus passos gastos. E ao chegar à janela: Parou.


Ele, já havia perdido o gosto há muitos anos, sentava-se à cama e reclamava ao diabo a suas dores. Este ultimo, todos os dias o respondia, sussurrava-lhe imagens infernais e explicava detalhadamente a cena derradeira. E tinha a ferida: Aquela que cultivou como orquídea, e que como tal a expunha, com orgulho e rancor, com exclusividade, como se o sol e a lua todos os dias brigassem para contemplá-la.


E lá estavam, enojados, dividindo moeda a moeda, tijolo por tijolo, tudo aquilo que construíram de mãos dadas.


O genro tremeu ao olhar rosto da mulher ouvindo a notícia, despejou toda a esperança do sábado como se joga uma vaso pela janela. Tudo porque aquilo parecia absurdo.


Todos os filhos-bem-casados entraram em colapso, repensaram todo um quarto de memórias procurando míseros pedaços de erro, ouvindo cada palavra amável dos seus amantes, esperando friamente o momento do desgarre. Doera muito mais do que em dois corações cansados, que pareciam finalmente terem perdido o fio.


Como andaria o velho sem o braço da velha? Que roupa colocaria? Para quem a velha sorriria daquela forma tão discreta?


Uma história que me encarnou no estômago e só me aliviou quando fui até o quarto, e lá à vi dormindo: A mulher que me dá corda à vida.


Um ano.

2 comentários:

F.Silvestre disse...

My old friend!
http://queseraqueeudevodizer.blogspot.com/

Me senti compelido e influênciado a escrever, lendo os seus textos bro.

Anônimo disse...

Ai que dor...
Todo começo tem um fim?


www.eporfalaremamor.blogger.com.br