domingo, 10 de junho de 2007

Bolinhas de gude e homens mentirosos.

Estava lá. Deitado de bruços no meio da sala. Se segurava nos azulejos brancos com suas unhas ruídas. Com as pontas dos dedos doendo e com pés que começavam a ceder ao peso da mesa: Finalmente, levantou vôo.


Preocupava-se. Afinal, o que diriam os vizinhos se o vissem sair voando pela janela?


Pouco à pouco os outros pequenos objetos começavam a acompanhá-lo. Estes, por sua vez, não tinham a sua perícia, voavam tortos, sem asas, e o máximo que conseguiram foi se apoiarem no teto empoeirado.


Cuidadosamente driblou cada insignificante, e antes que suas últimas bolinhas de gude fugissem pela janela ele à fechou, tímido, como se o expiassem nu. Fechou as persianas e observou paranoicamente a rua que se molhava depravadamente, sob e sobre cada idiota que acredita na previsão do tempo.


Ele rio, e as horas correram e esperaram ansiosamente que às encontrassem. Como crianças no pique-esconde.


Pensou, pesquisou na internet, no almanaque que insistia em bater nas janelas, nas anotações do colégio, no caderno de finanças dos pais e em cada pedaço de papel que conseguia nadar através. E nada, nem uma mísera dica sobre o que acontecera.


Pensou, como tanto sonhara, ter virado astronauta. Juntou algumas dúzias de bolinhas de gude e fez como o cara da televisão fez com os chicletes: As deixou flutuar livremente pelo espaço e, com alvoroço, engolia uma por uma, a leitosa, a carambola, a mudinha, aquelas verdes bem simples, as azuis, e até uma de metal que achou um dia ser uma delas. Mas não o cocolão, o olho-de-boi.


Tudo soava muito bem, a àgua que tomava sem copo, só abrindo a torneirinha do filtro e a esperando entrar levemente garganta à dentro, a preguiça de andar estava finalmente resolvida, a piscina que fizera no teto do banheiro, e as outras milhões de coisas-que-se-pode-fazer-quando-se-está-quase-sem-gravidade. No entanto certas coisas começaram a preocupar: A vontade de ir no banheiro por exemplo, como ele faria? ia deixar lá a poça de merda no teto? E o cocô, que provavelmente iria ficar flutuando por toda a casa. E os seus pais? O que diriam de toda aquela bagunça? E a aula no outro dia? Será que lá fora o resto da cidade também estaria assim?


As horas passaram, as costas começavam a doer por estarem sempre tensas. A comida e as bolinhas de gude que comera continuavam a tentar escapar pela sua garganta toda vez que ele ficava na posição vertical. Cansou. Queria dormir mas aquela sensação começava a lhe deixar enjoado, e o gosto de vômito começava a lhe invadir os sabores. Desistiu.


Abriu a janela com uma expressão de culpa, como se assim fizesse como ultima opção. Segurou com as mãos e pés na borda e abriu a boca. Lentamente sentiu cada bola de gude tomar o mundo, em seguida os pedaços de salsicha, logo depois uma água suja que nem lembrara ter tomado. Queria saber até onde iriam, se saíam voando ou se despencariam ladeira à baixo. Elas sumiram.


Não se sabe se foi por descuido ou por vontade, mas dizem que ao se inclinar para procurar a última bolinha de gude um pé lhe escapou, e com ele todo o corpo, escorregou no ar. foi-se.

Um comentário:

Anônimo disse...

Desfez-se no ar, também. Às vezes eu queria ter asas.

=*

carol